Constelação Familiar

Constelação Familiar

Constelações Familiares segundo Bert Hellinger
O Trabalho com as Constelações Familiares
Uma introdução de Bert Hellinger

O caminho do conhecimento

Dois movimentos nos levam ao conhecimento. O primeiro se estende e quer abarcar algo até então desconhecido para dele se apropriar e dele dispor. O esforço científico pertence a esse tipo e sabemos quanto ele transformou, assegurou e enriqueceu o nosso mundo e a nossa vida. O segundo movimento se origina quando nos detemos, durante nosso esforço em abarcar o desconhecido, e dirigimos o olhar, não mais para um determinado objeto palpável, mas para um todo. Assim, o olhar está disposto a receber, simultaneamente, a diversidade que se encontra à sua frente. Quando nos deixamos levar por esse movimento, por exemplo, diante de uma paisagem, uma tarefa ou um problema, notamos como nosso olhar fica, ao mesmo tempo, pleno e vazio. Pois só podemos nos expor à plenitude e suportá-la, quando prescindimos primeiramente dos detalhes.

Assim, detemo-nos em nosso movimento exploratório e nos retraímos um pouco, até atingirmos aquele vazio que pode resistir à plenitude e à diversidade. Esse movimento, que primeiramente se detém e depois se retrai, chamo de fenomenológico. Ele nos conduz a conhecimentos distintos daqueles obtidos pelo movimento do conhecimento exploratório. Contudo, ambos se completam. Pois também no movimento do conhecimento científico exploratório precisamos, às vezes, deter-nos e dirigir nosso olhar, do estreito ao amplo, do próximo ao distante. Por sua vez, o conhecimento resultante do procedimento fenomenológico precisa ser verificado no indivíduo e no próximo.

O processo

No caminho do conhecimento fenomenológico, expomo-nos, dentro de um determinado horizonte, à diversidade dos fenômenos, sem escolher entre eles e nem avaliá-los. Esse caminho do conhecimento exige, portanto, um esvaziar-se, tanto em relação às idéias preexistentes quanto aos movimentos internos, sejam eles da esfera do sentimento, da vontade ou do julgamento. Nesse processo, a atenção é simultaneamente dirigida e não dirigida, centrada e vazia. A postura fenomenológica requer uma prontidão tensionada para a ação, sem passar, entretanto, à execução. Graças a essa tensão, tornamo-nos extremamente capazes e prontos para perceber. Quem a suporta percebe, depois de algum tempo, como a diversidade presente no horizonte se dispõe em torno de um centro e, de repente, reconhece uma conexão, uma ordem talvez, uma verdade ou o passo que leva adiante. Esse conhecimento provém igualmente de fora, é vivenciado como uma dádiva e é, via de regra, limitado.

O Trabalho com as Constelações Familiares

O que o procedimento fenomenológico possibilita e requer pode ser experimentado e descrito de modo especialmente marcante através do trabalho com as constelações familiares. Pois a colocação da constelação familiar é, por um lado, o resultado de um caminho do conhecimento fenomenológico e, por outro lado, o procedimento fenomenológico obtém resultado, quando se trata do essencial, apenas através da contenção e confiança na experiência e compreensão por ele possibilitadas.

O cliente

O que acontece quando um cliente coloca a sua família na psicoterapia? Em primeiro lugar, escolhe entre as pessoas de um grupo, representantes para os membros de sua família. Portanto, para o pai, para a mãe, para os irmãos e para si mesmo, não importando quem ele escolhe para representar os diversos membros de sua família. Na verdade, é melhor ainda se escolher os representantes independentemente de aparências externas e sem uma determinada intenção. Isto já é o primeiro passo em direção a uma contenção e uma renúncia à intenções e velhas imagens.

Quem escolhe seguindo aspectos exteriores, por exemplo, idade ou características corporais não se encontra numa postura aberta para o essencial e invisível. Limita a força expressiva da colocação através de considerações externas. Com isso a colocação de sua constelação familiar já pode estar, para ele, talvez fadada ao fracasso. Por isso também não importa e algumas vezes é melhor que o terapeuta escolha os representantes e deixe o cliente configurar com estes a sua família. Porém, o que deve ser considerado é o sexo das pessoas escolhidas, isto é, que homens sejam escolhidos para representar os homens e mulheres para as mulheres.

Escolhidos os representantes o cliente coloca-os no espaço um em relação ao outro. No momento da colocação é de grande ajuda que ele os segure com ambas as mãos pelos ombros e assim em contato com eles os posicione em seu lugar. Durante a montagem permanece centrado, prestando atenção ao seu movimento interior, seguindo-o até sentir que o lugar para onde conduziu o representante seja o certo. Durante a colocação está em contato não somente consigo e com o representante, senão também com uma esfera, recebendo daí também sinais que o ajudarão a encontrar o lugar certo para essa pessoa. Prossegue assim com os outros representantes até que todos se encontrem em seus lugares. Durante este processo o cliente está , por assim dizer, esquecido de si mesmo.

Desperta deste esquecimento de si mesmo quando todos estão posicionados. Algumas vezes é de ajuda quando, em seguida, dá uma volta e corrige o que ainda não está totalmente certo. Senta-se, então. Podemos perceber imediatamente quando alguém não se encontra nesta postura de esquecimento de si mesmo e contenção. Por exemplo, quando prescreve para cada um dos representantes uma determinada postura corporal no sentido de uma escultura, ou quando monta a constelação muito depressa como se seguisse uma imagem preconcebida ou quando se esquece de colocar uma pessoa, ou quando declara que uma pessoa já está em seu lugar certo sem tê-la posicionado de modo concentrado.

Uma constelação familiar que não foi configurada deste modo concentrado termina num beco sem saída ou de forma confusa.

O terapeuta

O terapeuta precisa também se libertar de suas intenções e imagens a fim de que a colocação de uma constelação familiar tenha êxito. Na medida em que se contém e se expõe centrado à constelação, reconhece imediatamente se o cliente quer influenciá-lo através de imagens preconcebidas ou esquivar-se daquilo que começa a se mostrar. Então ele ajuda-o a se centrar e o conduz a um estado de disposição para que se exponha ao que está acontecendo. Se isso não for possível, pára com a colocação.

Os representantes

Exige-se também dos representantes uma contenção interna de suas próprias idéias, intenções e medo. Isso significa que eles devem observar exatamente as mudanças que se manifestam em seu estado corporal e seus sentimentos enquanto são colocados. Por exemplo, que o coração bate mais depressa, que querem olhar para o chão, que se sentem repentinamente pesados ou leves, ou estão com raiva ou tristes. É também de grande ajuda quando prestam atenção às imagens que emergem e que ouçam os sons e palavras que afloram.

Por exemplo, um americano que estava começando a aprender alemão, ouvia constantemente durante uma colocação familiar na qual ele representava um pai a sentença alemã: "Diga Albert". Mais tarde ele perguntou ao cliente se o nome Albert tinha algum significado para ele. "Mas é claro", foi a resposta", é o nome do meu pai, do meu avô e Albert é o meu segundo prenome."

Uma outra pessoa que representava em uma constelação o filho de um pai que havia morrido em um acidente de helicóptero ouvia constantemente o ruído do rotor de um helicóptero. Certa vez este filho tinha sido o piloto de um helicóptero em que estava também o pai. O helicóptero caiu, mas os dois sobreviveram. Para que essa postura obtenha resultado são naturalmente necessárias uma grande sensibilidade e uma enorme prontidão para se distanciar de suas próprias idéias. E o terapeuta precisa ser muito cauteloso para que as fantasias dos representantes não sejam captadas como percepções. Tanto o terapeuta quanto os representantes podem escapar mais facilmente deste perigo quanto menos informações tiverem sobre a família.

As perguntas

A percepção fenomenológica obtém melhores resultados quando se pergunta só o essencial, diretamente antes da colocação familiar. As perguntas necessárias são:

Quem pertence à família?

Existem natimortos ou membros da família que morreram precocemente ? Houve na família destinos especiais, por exemplo deficientes?

Um dos pais ou avós teve anteriormente um relacionamento firme, portanto, foi noivo(a), casado(a) ou teve de alguma forma um relacionamento longo e significante?

Uma anamnésia extensa dificulta, via de regra, a percepção fenomenológica tanto do terapeuta como também dos representantes. Por isso, o terapeuta recusa também conversas prévias ou questionários que vão além das perguntas mencionadas. Pelo mesmo motivo os clientes não devem dizer nada durante a colocação nem os representantes devem fazer peguntas de qualquer tipo para os clientes.

Centrar-se em si mesmo

Alguns representantes são tentados a extrair da imagem externa da constelação o que sentem em vez de prestar atenção à sua percepção corporal e ao seu sentimento interno imediato. Por exemplo, o representante de um pai dissera que se sentia confrontado pelos filhos porque estes tinham sido colocados à sua frente. Entretanto, quando prestou atenção ao seu sentimento interior imediato, percebeu que estava se sentindo bem. Ele se desviara de sua percepção imediata por causa da imagem externa. Algumas vezes, quando um representante sente algo que lhe parece indecoroso, não o menciona. Por exemplo, que ele, como pai, sente uma atração erótica pela filha. Ou uma representante não se arrisca a dizer que ela, como mãe, se sente melhor quando um de seus filhos quer seguir um membro da família na morte.

O terapeuta presta atenção, portanto, aos leves sinais corporais, por exemplo, um sorriso ou um retesamento, ou uma aproximação involuntária das pessoas. Quando comunica tais percepções os representantes podem verificar novamente a sua própria percepção. Alguns representantes fazem também afirmações amáveis porque pensam que com isso poderão ajudar ou consolar o cliente. Tais representantes não estão em contato com o que acontece e o terapeuta deve substitui-los por outros imediatamente.

Os sinais

Um terapeuta que não se mantém constantemente durante a situação inteira em sua percepção centrada, isto é, sem intenção e sem medo, é levado, muitas vezes através de afirmações de primeiro plano a um caminho errado ou a um beco sem saída. Com isso os outros representantes ficam também inseguros. Existe um sinal infalível se uma colocação familiar está no caminho certo ou não. Quando começa a se perceber no grupo observador inquietação e a atenção diminui, a colocação não tem mais chance. Nesse caso, quanto mais depressa o terapeuta interromper o trabalho tanto melhor.

A interrupção permite a todos os participantes concentrar-se novamente e depois de algum tempo recomeçar o trabalho. Algumas vezes o grupo observador também apresenta sugestões que levam adiante. Entretanto isto deve ser apenas uma observação. Se tentarem somente adivinhar ou interpretar, isso aumenta a confusão. Então o terapeuta também deve parar a discussão e reconduzir o grupo à concentração e seriedade.